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A continuidade da salvação

  • Foto do escritor: Pablício Joaquim
    Pablício Joaquim
  • 26 de jun.
  • 4 min de leitura

A salvação é algo que acontece na vida do cristão no momento em que ele crê; no

entanto, a obra de Deus na vida do homem não se encerra nesse momento. O Senhor passa a agir na restauração do homem, e há algo que faz parte desse processo: o que chamamos de santificação. Nosso estudo de hoje tem por objetivo entender como se dá a santificação na vida do homem após sua conversão.

 

A natureza da santificação

A santificação é a obra contínua de Deus na vida dos crentes. É um processo que tem por objetivo elevar a condição moral de uma pessoa à conformidade com sua posição legal diante de Deus. Nós, enquanto salvos por meio de Cristo, nos tornamos legalmente justos diante de Deus; no entanto, nossa natureza pecaminosa precisa ser redimida. Assim, o Senhor age em nossas vidas, fazendo com que o homem passe a ter, progressivamente, uma conduta condizente com sua posição legal.

 

Há um adjetivo hebraico que significa “santo”: qadôsh. Esse termo também significa separado, podendo referir-se a algo separado ou a alguém separado. Aqui, o sentido é de algo ou alguém separado para Deus. No texto bíblico, temos lugares separados, como o Santo dos Santos; objetos separados, como os utensílios do templo e as vestes sacerdotais; e também homens separados para o serviço de Deus, como os primogênitos (Ex. 13.2).

A ideia de alguém separado — santo — também se encontra no Novo Testamento. Pedro, por exemplo, chama seus leitores de sacerdócio real e nação santa (1 Pe. 2.9). A ideia presente no Novo Testamento é que ser santo é ser separado para o Senhor e pertencer a Ele. No Novo Testamento, a palavra usada para se referir aos santos é hagios, no plural hagioi. Em 1 Cor. 1.2, Paulo se refere àqueles cristãos como “chamados para serem santos (hagioi)”. O que sabemos é que a comunidade de Corinto não era um exemplo de santidade; no entanto, mesmo com suas falhas, havia sido separada por Deus — santificada — hagioi/qadôsh para Deus.

 

Características da santificação

Antes de tratarmos desse tema, vale ressaltar uma diferença entre santificação e justificação. Como sabemos, a justificação é algo instantâneo (Rm. 5.1; Gl. 2.16); em contrapartida, a santificação é um processo que ocorre progressivamente na vida do crente.

A santificação é uma obra realizada por Deus na vida do cristão; isso significa que não conseguimos nos santificar com méritos próprios. Podemos perceber essa obra divina na vida do cristão em diversas passagens das Escrituras (1 Ts. 5.23; Ef. 5.25-27; Hb. 13.20, 21). Além disso, podemos afirmar com tranquilidade que essa obra realizada por Deus é progressiva com base no texto bíblico. Vejamos as palavras do apóstolo Paulo em Fp. 1.6: “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo”.

Não devemos, com base no exposto, concluir que o cristão é completamente passivo na santificação. Há momentos nas Escrituras em que somos convidados ao crescimento espiritual, como veremos a seguir. Em Fp. 2.12, somos exortados a desenvolver a salvação com temor e tremor; logo no verso seguinte, somos conscientizados de que Deus realiza em nós o querer e o realizar. Portanto, temos de ser operantes positivamente em nosso processo de santificação, pois, sem o agir de Deus em nossas vidas, o querer e o realizar não existiriam, assim como não existiam enquanto estávamos perdidos em delitos e pecados. Em Rm. 12.9, 16 e 17, temos as seguintes orientações paulinas para a nossa santificação: detestar o mal e apegar-se ao bem; não ser sábio aos próprios olhos nem orgulhoso; e esforçar-nos para fazer o bem perante todos os homens.

Como se vê, as duas coisas se unem: o agir de Deus na vida do crente, auxiliando-o na santificação por meio do convencimento do Espírito Santo, que faz com que haja no cristão o desejo de viver em conformidade com o caráter santo de Deus; e a resposta do homem com ações virtuosas diante da obra realizada por Deus em seu interior.

 

Santificação completa ou incompleta?

Há duas posições sobre até onde vai a santificação na vida do homem. O primeiro grupo são os chamados perfeccionistas; o segundo, os não perfeccionistas.

Os perfeccionistas defendem que o homem pode chegar a um estado de santificação neste mundo, a ponto de não mais pecar. Para fundamentar sua posição, geralmente usam os seguintes textos: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt. 5.48), entendendo que Jesus dá margem à ideia de que podemos alcançar tal perfeição aqui neste mundo. Além disso, temos as seguintes palavras de Paulo: “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef. 4.13), que mais uma vez nos dão a entender que podemos chegar a uma santidade em pé de igualdade com Cristo.

Por outro lado, os não perfeccionistas vão argumentar que esse estado de santidade só é possível ser alcançado nos céus, quando o homem for glorificado e receber um corpo incorruptível. Os textos usados pelos que defendem tal posição são os seguintes:“Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós”(1 Jo. 1.8). Como se vê, João vai direto ao ponto, demonstrando que não há possibilidade alguma de o homem viver neste mundo sem pecado. Além disso, o apóstolo Paulo demonstra isso quando fala sobre sua própria dificuldade em desvencilhar-se completamente do pecado: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo” (Rm. 7.18).

Como podemos, então, conciliar essas duas posições, uma vez que ambas se apoiam no texto bíblico e são diametralmente opostas? Podemos entender que, aqui neste mundo, o Senhor nos dá uma referência de santidade, que é o seu próprio ser. Devemos buscar intensamente ser como Ele, santo; no entanto, a plenitude dessa santidade se dará quando estivermos na glória, numa condição em que seremos, de fato, em santidade, completamente separados — ou seja, santos — das coisas deste mundo. Assim, os textos apresentados por ambas as posições não se contradizem, mas se complementam, demonstrando que não somos capazes de não pecar, embora devamos ter tal objetivo; e, por fim, isso se realizará por completo na vida do crente quando ele estiver no estado de glorificação, lá nos céus.

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