A imagem de Deus e sua corrupção
- Pablício Joaquim
- 8 de mai.
- 4 min de leitura

Em nosso estudo sobre o ser humano, usaremos o termo “homem” como referência a toda a humanidade, tanto homem (no sentido de masculino) quanto mulher. Fazemos isso pelo fato de ser, biblicamente, a forma mais apropriada para se referir ao gênero humano.
O termo “homem” é uma tradução da palavra hebraica ’ādām, o mesmo nome usado para Adão, que por sua vez remete a ’ădāmâh, que significa terra, solo, húmus. Ou seja, é um termo que faz alusão à formação do homem, e é assim que Deus se refere à humanidade em sua criação. Em Gn 1.27 encontramos o seguinte: “Criou Deus, pois, o homem (’ādām) à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Nesse sentido, diferentemente do que se estabelece em muitos discursos dos dias atuais, “homem” aqui se refere à humanidade. Sendo assim, quando dizemos que o homem é a imagem e semelhança de Deus, não excluímos a mulher.
O que significa dizer que o homem é a imagem e semelhança de Deus?
Essa questão é muito debatida entre os teólogos, e há diferentes proposições quanto a isso. Alguns entendem que somos a semelhança de Deus em uma concepção funcional: exercemos uma função no domínio da criação, semelhante ao domínio de Deus sobre toda a criação. Uma segunda proposta seria uma semelhança na essência, pois, como Deus, temos algumas qualidades como razão e espiritualidade.
A verdade é que as Escrituras não nos dão detalhes específicos sobre o que elas querem dizer exatamente com “imagem e semelhança”. Sabemos, no entanto, que o homem, quando foi criado, recebeu mandatos divinos: governar a terra, multiplicar, enchê-la e sujeitá-la. De certa forma, cumprimos ofícios divinos, pois Deus está governando todo o universo; nesse ponto, somos de fato sua imagem e semelhança.
Podemos afirmar, então, que o primeiro homem, Adão, foi a imagem e semelhança de Deus em sua espiritualidade, governo e consciência de si, além de sua inocência, pois não havia sobre ele a imputação de nenhum pecado. Ele, em sua semelhança com Deus, não foi onisciente, mas consciente de si; não governou o universo, mas recebeu autoridade para governar a terra; não era perfeito, mas inocente, representando assim a imagem de Deus no mundo criado, sendo uma espécie de fotografia que, apesar de representar algo real, não o faz em plenitude, mas em parte.
Portanto, quando as Escrituras dizem que somos a imagem e semelhança de Deus, referem-se à nossa consciência, domínio, espiritualidade e governo. Qualidades que, em Deus, estão em absoluto; em nós, em medida limitada. Somos, então, não idênticos, mas semelhantes, uma espécie de imagem representativa. Carregamos conosco, assim, algo do Criador.
Semelhantemente, vemos que, a partir de Adão, todos são à sua imagem e semelhança. O texto de Gn 5.3 nos faz perceber que Adão e a mulher, ao gerarem seu filho Sete, fazem com que ele carregue consigo sua imagem e semelhança. Isso significa que, além dos atributos que Deus compartilhou conosco, nós, enquanto filhos de Adão, carregamos também parte de suas características, entre elas o pecado. Por isso, o texto de Rm 3.23 nos diz: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus.”
A distorção da imagem de Deus na queda
Numa manhã de domingo, no Museu do Louvre, em Paris, duas manifestantes atiraram sopa contra a pintura da Mona Lisa. Obviamente, a pintura estava protegida por um vidro e não sofreu danos algum. No entanto, vamos imaginar que a pintura estivesse desprotegida e fosse realmente atingida pela sopa. A mancha causaria danos que nos atrapalhariam a ver a imagem da Mona Lisa; contudo, mesmo com a mancha, ainda seria a Mona Lisa.
Assim também é a humanidade: apesar de manchada pelo pecado, ainda somos a imagem de Deus. Duas afirmações são importantes nas Escrituras para que possamos nos convencer disso.
A primeira passagem está em Gn 9.6: “Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado, porque Deus fez o homem conforme a sua imagem.” Como se vê, mesmo após o pecado, o dilúvio e a maldade humana espalhada sobre a terra, Deus estabelece, no período do governo humano, uma lei que nos dá duas percepções: (1) Deus dá autoridade ao homem, nesse momento histórico, para ser juiz e executor de vingança proporcional à agressão — a morte. Essa autoridade dada por Deus nos assemelha a Ele; (2) Deus continua entendendo que o homem é a sua imagem; por isso, tirar a vida de outro homem é uma agressão contra a imagem de Deus, agressão tamanha que deve ser punida com a morte.
No Novo Testamento, Tg 3.9 nos ensina que todos os homens são imagem de Deus, não somente os crentes, pois o versículo não faz aqui nenhuma distinção. Logo, podemos entender que, mesmo o homem manchado pelo pecado e não podendo mais representar a Deus com perfeição, não é considerado nas Escrituras como outra coisa, senão como sua imagem.
É em Cristo, então, que essa imagem é gradualmente recuperada. O texto de Cl 3.10 diz que o “novo homem”, ou seja, aquele que nasceu de novo, “se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou”. Em Cristo estamos recuperando a imagem de Deus em nossas vidas.
Sara Drew é uma conservadora de arte que trabalha no Center Art Studio, em Nova York. Seu papel é inspecionar uma pintura, perceber quais são os principais problemas para que possam ser corrigidos e restaurar a obra ao seu estado original. Analogamente, podemos, em suas devidas proporções, afirmar que essa é a obra do Espírito Santo em nossas vidas. Em 2Co 3.18, aprendemos que, quando temos nossos olhos desvendados, contemplamos a glória de Deus e somos, de glória em glória, transformados. Ou seja, isso é um processo que acontece em nossas vidas até que alcancemos a perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4.13).
O que é o homem, então? Seria apenas um ser racional? Um ser que sabe que sabe? Um homo sapiens fruto de uma evolução a partir de um mesmo ancestral comum aos macacos? A resposta é não. Somos a imagem e semelhança de Deus, corrompida e manchada pelo pecado em Adão, mas em processo de restauração em Cristo Jesus.


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