Introdução à doutrina da Trindade
- Pablício Joaquim
- há 2 dias
- 5 min de leitura

Em nosso estudo, buscaremos compreender com mais clareza a doutrina da Trindade. Para atingir nosso objetivo, seguiremos a seguinte sequência lógica em nosso estudo:
A doutrina da Trindade no Antigo Testamento.
A doutrina da Trindade no Novo Testamento (uma revelação mais completa).
Heresias que negam a doutrina da Trindade.
Abordagem histórica da doutrina da Trindade.
Ao examinar a doutrina da Trindade dessa forma, teremos domí
nio do desenvolvimento da doutrina tanto no texto bíblico quanto na história. Além disso, será possível compreender com mais clareza termos técnicos importantes e nos defender biblicamente contra seitas e heresias ainda presentes nos dias atuais.
1. A doutrina da Trindade no Antigo Testamento
Podemos definir a doutrina da Trindade do seguinte modo: Deus existe eternamente como três pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo –, e cada pessoa é plenamente Deus, e há um só Deus.
É necessário compreender que as Escrituras formam uma revelação progressiva. Isso significa que devemos fazer uso de todo o texto bíblico quando queremos perceber uma doutrina. No entanto, desde o Antigo Testamento já encontramos textos que nos ajudam a compreender essa verdade.
Já no livro de Gênesis temos um grupo de versículos que, em seu conjunto, nos mostra que Deus não é uma única pessoa. Tais textos são:
Gn 1.26: “Façamos o homem”;
Gn 3.22: “Como um de nós”;
Gn 11.7: “Desçamos e confundamos”.
Em todos esses textos, existe o uso da primeira pessoa do plural. Evidentemente, tais textos não são suficientes para encerrar a questão, ainda mais porque eles, por si sós, não nos apresentam a quantidade de pessoas que formam a Divindade. Além disso, outro problema surge quanto a esses textos supracitados: aqueles que se opõem à doutrina da Trindade consideram esses textos como plurais majestáticos.
Segundo eles, o plural majestático é o uso da primeira pessoa do plural (“nós”, “nosso”) por uma única pessoa para se referir a si mesma, geralmente como forma de expressar autoridade, solenidade ou grandeza. É uma convenção retórica e protocolar, não uma referência literal a múltiplos indivíduos.
Tal argumento apresenta alguns problemas: primeiro, não há registro bíblico em que os reis de Israel usassem esse tipo de linguagem; segundo, se tomamos como verdadeira essa ideia, devemos também levar em consideração que, quando um poderoso utilizava essa linguagem, não era ele quem, de fato, realizava o que foi prometido, mas seus encarregados. Ora, quanto às ações relacionadas aos versículos citados, Deus não encarregou anjos para realizar as tarefas que acompanham os textos; ele mesmo é quem as realizou. Logo, o que se percebe é Deus, de fato, se referindo a si mesmo como mais de uma única pessoa.
Precisamos agora compreender quantas pessoas formam essa Divindade. A doutrina da Trindade afirma que são três pessoas, como vimos. Mas encontramos isso no Antigo Testamento?
Ainda que a distinção entre pessoas já possa ser percebida no AT, é necessário o uso do Novo para que possamos lançar luz sobre esses textos. O Salmo 110.1 traz a seguinte declaração: “Disse o Senhor ao meu Senhor: assenta-te à minha direita”. A primeira coisa que precisamos perceber é que o Senhor do rei Davi é Deus; Davi, nesse salmo, usa “Senhor” para duas pessoas diferentes. Logo, temos aqui duas pessoas distintas sendo apresentadas nesse texto.
Ao interpretar esse salmo à luz do Novo Testamento, vemos Jesus entendendo que duas pessoas estão sendo mencionadas ali (Mt 22.41-46). Além disso, percebemos que Jesus é o único capaz de atender aos pré-requisitos desse texto, pois é ele quem está assentado à direita de Deus e quem tem seus inimigos debaixo do escabelo de seus pés (Ef 1.20; Hb 1.13).
Ainda nos resta perceber a respeito do Espírito Santo. Quanto à terceira pessoa, o profeta Isaías demonstra que ele não é um poder ou força, mas uma pessoa, por ser dotado de emoções, ao vermos a seguinte declaração: “entristeceu o seu Espírito Santo” (Is 63.10). Logo, percebemos que é possível termos o conhecimento da Trindade na revelação do Antigo Testamento quanto ao número de pessoas. Ainda no profeta, em Isaías 6.3, vemos os serafins dizendo uns aos outros: “Santo, santo, santo”. A repetição tripla, única no Antigo Testamento, chama a atenção, pois, no Novo Testamento, entendemos que aqui o profeta Isaías viu a glória de Cristo e falou a seu respeito (Jo 12.41). Em Atos 28.25, Paulo afirma que foi o Espírito Santo quem falou por meio do profeta, quando o texto original de Isaías se refere ao alto e sublime trono, e percebemos que o profeta está se referindo a Deus Pai. Logo, com a declaração angelical e os complementos do NT, percebemos aqui evidência de três pessoas que formam a Trindade.
A revelação mais completa da Trindade no Novo Testamento
Neste tópico não encerraremos o tema da Trindade na revelação bíblica; o objetivo agora é perceber como os textos apresentam a doutrina da Trindade no Antigo e no Novo Testamento, para, num segundo momento, já com esses textos em mente, conseguirmos pensar com mais clareza as proposições teológicas e combater os ensinos errados a respeito do tema.
No Novo Testamento, conseguimos enxergar com mais clareza o que toda a Bíblia diz sobre Deus. É importante lembrar que o NT não é uma nova revelação, mas a continuação da revelação divina, como podemos ver no autor de Hebreus quando diz:
Havendo Deus, antigamente, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho, a constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. (Hebreus 1.1,2).
Tendo em mente esse postulado, seguiremos adiante com nossos estudos. Há, no Novo Testamento, diversas passagens em que as três pessoas da Trindade são mencionadas juntas:
No batismo de Jesus Cristo, em Mt 3.16,17, temos as três pessoas presentes:
a. Jesus, que foi batizado;b. O Espírito Santo, que desceu como uma pomba;c. A voz de Deus Pai, que foi ouvida por todos.
Na grande comissão, temos a fórmula do batismo sendo ensinada: “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.
Em 2 Coríntios 13.14, encontramos a chamada bênção apostólica, onde, mais uma vez, as três pessoas são citadas: “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos”.
Todos esses textos nos mostram as três pessoas da Trindade sendo apresentadas juntas, com igualdade em importância. Isso não significa que há três deuses, mas sim que Deus é três pessoas. Há ainda alguns textos que nos fazem perceber essa particularidade de nosso Deus.
Quando lemos João 1.1, encontramos o seguinte: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Perceba que, nesse versículo, há dois verbos aplicados a Jesus Cristo em sua relação com o Pai. Primeiro, o verbo “estar” indica que são pessoas distintas uma da outra. Já o verbo “era” (ser) indica que Jesus tem a mesma natureza divina. Percebemos então duas pessoas distintas, pois estão um com o outro, mas ambos possuem a mesma essência, o mesmo ser.
Quando se trata do Espírito Santo, temos também a clareza de que ele é uma pessoa divina, como o Pai e o Filho, ou seja, com a mesma essência, mas distinto deles. Em Atos 10.38, encontramos a seguinte declaração: “como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder”. Nesse texto, percebemos:
O Espírito Santo não é um poder, pois o Espírito Santo e o poder são apresentados como realidades distintas;
O Espírito Santo não é o Filho, pois o Filho foi ungido com ele;
O Espírito Santo não é o Pai, pois o Pai não ungiu a si mesmo, mas ungiu o Filho com o Espírito.
Vemos, assim, que ele é uma terceira pessoa da Trindade e não um poder. Para complementar essa compreensão sobre o Espírito Santo, vemos, em 1 Coríntios 12.11, o Espírito Santo sendo apresentado como alguém que tem vontade e autonomia para distribuir os dons. Além disso, vemos, em Atos 5.3,4, que mentir para o Espírito Santo é como mentir para Deus; logo, ele é uma pessoa divina como o Pai e o Filho.


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